Robério Santos - Antônio Conselheiro na Villa de Itabaiana (cordel)


Tô de volta meus leitores Com meu mais novo cordel Antes mesmo que eu comece A história de um réu Que sofreu, mas se curou, E no final foi pro céu. Nome pouco conhecido Antônio Vicente Mendes De final com Maciel Todo mundo já lhe entende Quando fala nas caatingas Lugar esse que lhe prende. Em Sergipe, sua passagem, Silvio Romero falou: “Do céu veio uma luz Que Jesus Cristo Mandou; Sant´Antônio Aparecido Dos castigos nos livrou. Quem ouvir e não aprender, Quem souber e não ensinar, No dia do seu Juízo A sua alma a penar” Assim o promotor público Registrou sem recusar. Na passagem por Sergipe Aqui fez muitos adeptos. Pedia sempre uma esmola Ele não queria restos Só pegava o necessário, Isso que abalava os céticos. Era um bom missionário Assim falava O Rabudo Jornal famoso de Estância Da Comarca tinha tudo Sant´Antônio Aparecido Apelidaram o barbudo. Antes de Itabaiana Ele esteve em outra Ita, Era Itapicuru Cidadela da Bahia Cheia de cabra valente, E também moça bonita. Ele foi muito acusado De uma tal “monomania” Voltada à religião! O Padre sempre dizia: “Esse Beato é o Cão, A custo de revelia Deve mesmo é ser preso, Ou morrer na carabina”. Assim prenderam o homem Acusado de chacina, Por matar sua mãe e esposa, Era mentira esta sina. O mestre Euclides da Cunha No belo livro Os Sertões Narra a passagem do beato Por vários destes torrões No livro está afirmado Suas breves intenções: “Dos sertões de Pernambuco Passou aos de Sergipe”, Mas isso ainda era pouco Um espirro não é gripe. No livro bem afamado Por aqui ele reside. Este mesmo escritor Também foi assassinado Juntamente ao seu filho Sem deixar nenhum culpado. Tonho e Euclides Paes Mendonça Também foram baleados. Numa tarde de domingo Na Villa de Itabaiana Apareceu um senhor Tinha a aparência bacana Fedia como um gambá Sem se limpar uma semana. O Seu nome era Antônio Apodado Conselheiro, Com um cajado na mão Caminhava bem ligeiro Pra entrar em Itabaiana Villa de povo festeiro. Era o ano sete quatro Do século dezenove Tudo aqui era mais simples O povo era mais pobre As casas eram de taipa Na rua ninguém de move. Por aqui ele chegou Recebeu logo apelido Era o “Antonio dos Mares” Talvez este tenha sido Dentre todos outros nomes O que é menos conhecido. Quando o Santo aqui entrou Logo chamou atenção Com suas vestes azuis Bem mais sujo que o chão Com um ar misterioso, Preparando seu sermão. Carregava um surrão Na sua mão enrugada Com papel, pena e tinta E a Missão Abreviada E As Horas Marianas E a cara maltratada. Um dos seus bons seguidores Carregava um oratório Era como um templo único Feito de cedro e simplório Com a imagem do Cristo Pra dar tom ao repertório. Com sombreiro e de sandália Assim atravessou a Praça O povo curioso subia Nas moitas por onde passa O lodo podre da feira E a velhas todas sem graça. A multidão não sabia Donde vinha o sisudo Calado, calado fica Até se fazia de surdo Mas de sopetão virou Causando medo e sussurro. Olhou para o povo e disse: “O meu nome é Antônio Não tenho medo de nada Tenho aqui um breve sonho Que é guiar minhas ovelhas Nesta terra de tristonho Venho lá do Ceará Peregrinando aos montes Trago paz e mui conselho A quem quer beber na fonte Entre a Terra e nosso Deus Eu sempre serei a ponte”. Como nada acontecia Naquela pequena Villa O povo acreditava Pouca coisa o povo via Agora chegava o Santo Outro Antônio, que alegria! O estranho ancião Sentou ao lado da Igreja Igreja esta do seu Santo Dele não tinha inveja Não tinha onde morar Não tinha onde fazer festa. De repente a multidão Pegou seu pequeno nicho E no pé de jenipapo Pendurou como um bicho Que faz seu ninho na moita Para o povo de olho fixo. As pessoas ajoelhavam A orar pelo bem quisto Que por nós ele morreu Mandou o seu outro bispo Pra salvar o povo pobre Desse lugar esquisito. Povo bom da serraria Tratou logo a acomodar O estranho que aportava E que sabia falar Uma lábia angelical Na arte de aconselhar. Uma senhora devota Acreditou no profeta Levou ele até sua casa De maneira discreta Chamou ele para dentro Deu comida e deu sesta. Era uma casa pequena Pertin´ do Canto Escuro Era de barro a morada Pequenina e sem muro Uma porta e uma janela Nada além de um monturo. Para ser mais exato Era a Rua da Pedreira Caminho a uma lagoa Que uns dizem ser mineira; Pegar água pra beber Com as velhas lavadeiras. Toda noite os peregrinos Vigiavam o visitante De pertinho pra saber O que se passava no instante Que o Sol se apagava No horizonte distante. Todos com o terço na mão E uma vela acesa Esperavam o abrir da porta Ou da janela presa Por uma tábua cerrante Encostada por uma mesa. Um silencio sepulcral Acompanhava o povão Os passos dentro da casa Ecoavam bem no chão “É Ele quem está chegando Nosso Messias-Irmão”. Na cidade ele queria Deixar sua marca certeira Reformar um cemitério Construir uma igreja Pro povo pobre enterrar E rezar pra quem que seja. Com o povo aos seus pés Deu-se início à construção Do Cemitério das Flechas Para o povo cristão Perto do Pé do Veado Bem perto do Bastião Junto ao povoado Água Branca Colado a Terra Vermelha Chegando na Sambaiba Seguindo a estrada velha De casas todas de barro E mato até na telha. Antes este cemitério Foi chamado Sananã Era nome de Beata De juízo e mente sã Mas estava abandonado Parecendo pucumã. Com todo o seu carisma Pediu ajuda aos cristãos Pra poder reconstruir Dentro de sua condição: Queria rezar o terço Praticando exortação. Mesmo o padre sendo contra Não teve medo e chamou Umas trinta almas boas Todos disseram: eu vou! Sem ter medo da Igreja Nem dos crentes que enjoou. O padre de Itabaiana Era o Cônego Domingos De Melo Rezende chamava A todos que eram ungidos Na fé da prece mundana Na água benta os respingos. Pedra sobe, pedra desce A massa encimentada; Os jumentos carregando As pedras pela estrada Os velhinhos mais afoitos Trabalhavam na enxada. Terminado o serviço, Hora de enterrar os mortos. Mas não tinha nenhum morto Onde encontrar os corpos? Pra inaugurar o local E valer pena os esforços. Conselheiro emitindo A voz e se fez de novo: “Povo deixe de ligança Nós não tivemos estorvo; Deus nos agradecerá Pelo trabalho do povo”. Assim acabado o sermão Retornaram a Itabaiana Numa procissão de fé Do Santo de face humana Fazedor de ladainhas Já a várias semanas. Continuava toda noite Sua fala demorada No barranco improvisado Com o povo na calçada: Menino, homem, cachorro E as beatas recalcadas. Bem no dia vinte e cinco Do mês sete, de Sant´Ana Teve uma ideia medonha Para não perder a chama De Jesus que tanto fala E ficar lá de campana. Era outra construção Agora, de uma capela Com formatos singulares Na sua porta, janela E um sino no badalo Com pedreiros na tutela. Como Ele era pedreiro, Esta era a profissão, Juntou um monte de gente Teve mais sim do que não, Todos queriam ir pro céu Junto a São Cristóvão Depois dela construída Afastada da Matriz Com a frente voltada ao oeste. Sem nenhuma diretriz Para se seguir ao certo Sem deixar uma cicatriz. Um cruzeiro existia Hoje não existe mais Assim ficou o apelido Dentro dos livros e anais Da história assim contada Antes sim, hoje não mais. “Igrejinha do Cruzeiro” Era o nome de batismo. Século vinte chegava E ele sem egocentrismo, Chamou: “Cruzeiro do Século” Nome este esquecido. Hoje em sua homenagem O santo dos andarilhos Assim como Conselheiro Andou muito, meus filhos! São Cristóvão é seu nome Um santo com muito artilho. Pouco tempo ele ficou Só exatamente um mês Noutras vilas ele ia Mais ou menos outras três Perambulando em vontade Com os que nele crê. Saiu bem como entrou Sumiu sem deixar sinal. Com ele, foram mais gente, Aqui não passou foi mal Um casal de pai e filha Seguiu-o até o final. Seu nome: José Nicósio Era um pobre lavrador Que cuidava de sua filha Na alegria e na dor Ela uma moça formosa Como a mais pura flor. O algodão se acabando A seca matando gente A fome se alastrando No mais inferno recente Sua filha disse “Pai Vamos embora pra frente?” Seu nome era Ana Josefa Sua idade ninguém sabe, Mas o certo é que se foram Deixando muita saudade. Depois da Guerra acabada, Fugiram pra outra cidade. Também falou Gumercindo Um padre bem afamado Que por aqui caminhou Com o povo ao seu lado Como fez antes o beato Num longínquo passado. Sua mãe acompanhava Os sermões do Conselheiro Aprendeu sobre a fé, Sobre Deus e o dinheiro. Era um grande ministro Deste lugar por inteiro. Numa carta, sua mãe, Relata aquela passagem Nas terras de Ayres da Rocha Na época da estiagem Como um velho muito sábio De apurada linguagem. Sua passagem foi notada Pelo povo ceboleiro Que na época ainda era Pouquíssimo interesseiro. Mas um dia isso mudou, Mudou mesmo por inteiro. Depois de noventa e sete Quando Canudos caiu No século dezenove O povo de pé aplaudiu Aqui na Praça da Igreja A força de mais de mil Homens fortes e armados Que defenderam sua causa Batalharam em Belo Monte Sem ao menos dar uma pausa Mas a morte era certa De pé não ficou uma casa. Assim terminava a história Do beato dos beatos Aqui outra começava Juntando ficção e fatos Na mesma Praça Matriz Encenavam os mal tratos. Junto à palmeira real As pessoas se juntavam Faziam ranchos de palha Todos se fantasiavam De Antônio e de Soldados E na noite eles lutavam Contra o exército da força Recentemente implantada Gritos, fogos e sussurros De pé não sobrava nada No famoso fogaréu De bacamarte e enxada. Às nove horas do dia Começava a batalha, Simulada, eu sei disso, Não havia uma falha. População nas janelas Assistiam aquela Falla. A festança atravessava A madrugada sombria Numa cidade sem luz A escuridão assumia Seu papel de guardiã Do medo depois do dia. Por toda sua passagem No interior sergipano Deixou muitas impressões Durante todo um ano Carregando negativas Aos de batina e mando.

“O Sertão vai virar mar,

O mar vai virar Sertão”.

Essa sua frase famosa

Preenchia seu sermão,

Na Villa de Itabaiana

Esse Antônio voltou não.


Duas décadas depois

Na Tabaiana Cidade

A Coluna aqui passou

Com gente de toda idade

Era a quarta expedição

Carregados de maldade.


Iam para o Canudos

Acabar com Conselheiro.

A Guerra estava no fim

Não havia aguaceiro

No Rio Vaza Barris

Que seguiam roteiro.


Bem, aqui eu me disperso

Do meu mais novo livreto.

Aos que gostaram obrigado,

Aos que não, leiam direito.

É sempre bom ler de novo,

Pois é assim que é feito.


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*Fotos do autor na igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, em Curralinho - Poço Redondo-SE e no Cemitério de Entre Rios-BA.

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