Pesquisador malhadorense estuda, no Canadá, proteína do Coronavírus que pode ser o fim da pandemia


O pesquisador malhadorense Hugo César Ramos de Jesus, 33 anos, estuda no Centre for Blood Research da University of British Columbia (Vancouver-Canadá) uma proteína especifica e de crucial importância para o Coronavírus, sem ela o vírus não consegue se replicar nem se desenvolver, a pesquisa busca maneiras de inativar essa proteína, para que ela perca sua funcionalidade. Essa pode ser a chave para o, tão esperado, fim da pandemia.


Cientificamente falando, o foco da pesquisa é a análise da principal protease do SARS-CoV-2, conhecida como 3CLpro. Busca entender mecanismos moleculares associados a 3CLpro e também procura identificar quais são as proteínas humanas que são clivadas por essa protease.


Hugo César, ou simplesmente, “Hugo de Edivaldo de Zé Surdo” possui graduação em Química pela Universidade Federal de Sergipe (2010), mestrado em Química pela Universidade Federal de Sergipe (2012), Doutorado em Ciências pela Universidade Estadual de Campinas (2016) e pós-doutorado no Centre for Blood a da University of British Columbia BEPE-PD / FAPESP (2019). Tem experiência nas áreas de Química e Bioquímica, atuando principalmente nos seguintes temas: proteômica, espectrometria de massas e produtos naturais.


COMO O NOSSO MENINO FOI PARAR EM VANCOUVER?


Em 2018, durante o Pós-doutorado no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), surgiram algumas questões específicas relacionadas ao seu projeto de pesquisa. Para respondê-las, precisava de equipamentos e técnicas que não tinha à disposição. Foi então que Hugo começou uma busca por laboratórios de pesquisa no exterior que aceitassem estabelecer uma colaboração.


Ele entrou em contato, via e-mail, com cinco diferentes grupos de pesquisa especialistas na área (três dos Estados Unidos e outros dois do Canadá). O primeiro a responder rejeitou a proposta, outros três demonstraram interesse em estabelecer a colaboração e, o quinto grupo de pesquisa, apesar de responder de forma positiva, fez uma série de exigências para posteriormente definir se aceitaria a proposta ou não.


“Após pensar bastante no assunto, decidi passar pelo processo exigido por esse quinto grupo de pesquisa, sediado na University of British Columbia (UBC; Vancouver-Canadá). O fato de ser um grupo de renome mundial no estudo de proteases foi o que mais pesou na minha decisão, eu estava confiante que nesse laboratório conseguiria responder as questões relativas ao meu projeto de pesquisa naquele momento. Após uma série de e-mails trocados e entrevistas, fui finalmente aceito”, relata Hugo César.


A colaboração seria incialmente de oito meses (janeiro a setembro de 2019), tempo necessário para que ele fizesse as análises necessárias ao seu projeto. Foi então que em janeiro de 2019 mudou temporariamente para Vancouver e iniciou os trabalhos no laboratório.


“Ao chegar, fiquei impressionado com a excepcional infraestrutura e os recursos disponíveis. Após cerca de dois meses, recebi uma oferta de emprego para assumir uma posição de Pesquisador de Pós-doutorado e continuar naquele laboratório. Eu integraria o grupo de pesquisa formado por dois pesquisadores da Inglaterra, um australiano, uma alemã, uma cubana e um canadense. Para isso, eu precisava ficar em definitivo em Vancouver e solicitar o desligamento da UFSCar. Entretanto, além dos compromissos legais que eu possuía com a UFSCar e a FAPESP (agência de fomento), eu não pretendia passar mais que os oito meses fora do Brasil.



Minha então noiva, Paloma, havia acabado de conseguir uma vaga de Pós-doutorado no mesmo laboratório em que eu estava vinculado na UFSCar, sendo esse mais um motivo para que eu não aceitasse a proposta de continuar em Vancouver. Dessa forma, expliquei os motivos e recusei a proposta, informando que passaria apenas os oito meses previstos inicialmente. Pouco tempo depois, em junho de 2019, o líder do grupo de pesquisa me ofereceu novamente a vaga, mas em condições bem mais flexíveis dessa vez, que me permitiria voltar ao Brasil para finalizar os compromissos com a UFSCar/FAPESP. Naquele momento, às instituições de pesquisa no Brasil estavam passando por uma fase bastante difícil, com inúmeros cortes de recursos por parte do governo federal, o que gerou uma incerteza muito grande para mim e para Paloma. Foi diante desse cenário que decidi aceitar a proposta. Finalmente, voltei ao Brasil no início de outubro de 2019 e finalizei os trabalhos na UFSCar. Em janeiro de 2020, retornei a Vancouver junto com Paloma, assumi a vaga na UBC e aqui estamos desde então”.


Um fato curioso é que assim que desembarcaram no aeroporto de Vancouver, Hugo e Paloma observaram uma movimentação incomum por parte dos oficiais de imigração. Em um certo momento, todos se recolheram e voltaram cerca de 15 min depois, usando máscaras. Foi então que eles tomaram ciência de que “o vírus” recém-descoberto na China possuía potencial pandêmico. Com a posterior confirmação da elevada capacidade de disseminação do Sars-CoV-2, o governo canadense decretou lockdown, boa parte do comércio, as universidades e centros de pesquisa foram fechados temporariamente.


"Nesse momento, nós abandonamos as pesquisas que estávamos conduzindo no laboratório e voltamos toda atenção para o novo Coronavírus. Com isso, recebemos uma autorização especial para manter o laboratório funcionando durante o lockdown e começamos a estudar Sars-CoV-2, dando ênfase a análise da sua principal protease. Desde então, esse é o foco principal da minha pesquisa cientifica aqui na UBC”, comenta Hugo.


COMO É A VIDA EM UMA CULTURA TOTALMENTE DIFERENTE DA NOSSA?


Isso eu vou deixar que o próprio Hugo conte para nós...


“Queria dizer que é fácil, mas não é. Eu diria que é um processo, em que a gente vai se acostumando e se adaptando à nova realidade ao longo do tempo. Eu e Paloma estamos nesse processo desde 2012, quando mudamos para Campinas-SP para fazer o doutorado na Unicamp, na época apenas como amigos. Nesse período, ficávamos sempre de olho nas promoções das companhias aéreas para, sempre que possível, dá um pulo em Malhador/Aracaju. Costumávamos ir cerca de 4-5 vezes ao ano visitar nossa família e amigos. Hoje, no Canadá, isso não é mais possível, o que torna as coisas um pouco mais difíceis. Entretanto, há também o lado positivo.



O Canadá é um país excepcional e Vancouver tem muito a oferecer em termos de qualidade de vida, segurança, beleza natural e oportunidade de crescimento profissional. É uma realidade tão diferente da do Brasil, pela nossa experiência, que é difícil descrever de forma precisa. Mas o sentimento de que nossa casa é Malhador (eu) e Aracaju (Paloma), não nos abandona e talvez nunca abandonará independentemente de onde estivermos. Apesar disso, aprendemos a gostar de Vancouver, podemos dizer que fizemos bons amigos e somos felizes vivendo aqui”


Por Cleber Santos

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