Jilberto Oliveira - Tempo de Colheita


Desde criança, ouço algumas frases que trazem algum sentido em meu plano de vida. A primeira não sei se pertence ao sábio Salomão ou se vem da sabedoria do povo, talvez seja uma fusão de ambos, mas é bem positiva. “A quem Deus promete, ninguém tira.”; a segunda tem embasamento bíblico e diz que: “Há tempo para tudo debaixo do céu.” E a terceira é bem popular: “Não se atira pedra em árvore que não dá frutos”.


Mês passado, em uma live do professor Carlos Alexandre, eu disse que comecei minha vida de escritor quando estudava o nono ano do Ensino Fundamental, ao produzir minha primeira crônica, intitulada “A árvore e o progresso”. Nesse texto de apenas uma lauda, em que a personagem central é uma árvore plantada numa calçada de uma grande avenida, expressei minha preocupação com o meio ambiente urbano de São Paulo cujo ar ainda continua impregnado de fuligem e de outros componentes nocivos, provenientes do monóxido de carbono. Aquela crônica vista hoje me parece quase infantil embora o conteúdo seja brilhante. É compreensível. O amadurecimento vem com o tempo e com a prática.


Durante o Ensino Médio, dei continuidade à minha vocação de escritor, escrevendo vários tipos de texto. Entre eles, poemas com métrica, cordel e até peça teatral. Havia uma multiplicidade de gênero, no entanto, nenhum me satisfazia. É explicável. Estava em busca de meu estilo próprio. O fato positivo disso tudo é que nunca desisti, pois, assim como o diamante que precisa ser lapidado, o escritor também necessita ser modelado até se tornar em uma joia primorosa. Porém, advirto: esse é um processo longo que demanda tempo e nunca termina.


Em 2014, me aposentei. Tempo para escrever não seria problema. Sendo assim, revirei as gavetas e encontrei os escritos a mão de um romance iniciado em 1998. E, como mudei de residência em 2012, algumas partes se extraviaram. Diante desse entrave, resolvi montar o quebra-cabeça a fim de organizar as peças do enredo que estavam presentes e reescrever as que haviam sido extraviadas. Foi um longo processo que incluiu a digitalização para depois ser retomada a narrativa.


Em 2019, finalmente, concluí aquele romance cuja gestação durou 21 anos e que o intitulei de Trilhas do Cipoal. Um projeto literário que levou mais de duas décadas para ser concluído. Tempo suficiente para desaminar qualquer um que sofra de ansiedade, mas, aí, é que está o desafio. Quem escreve não pode ser ansioso nem ter pressa para chegar, pois escrever é uma ação constante de ir e vir. E pasmem! A fase mais difícil estava ainda para ocorrer: a publicação. Esta só veio dois anos depois, em 2021. Ah como foi difícil enveredar por esses caminhos! Difícil, mas cheguei e, nesse percurso das tantas trilhas, fui colhendo os frutos das sementes que semeei desde aquele longínquo 98. Entre esses frutos, saboreio: as admissões na Academia Municipalista de Sergipe e na Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG); entrevistas concedidas a Dr. Domingos Pascoal e publicadas no Portal 93 Notícias e na InfoNet; uma resenha escrita pelo escritor itabaianense Antônio Saracura; participação em várias lives e no programa do professor Carlos Alexandre; além de marcar presença em eventos como, a FLIG, a Feira do Livro de Itabaiana, Sessão Solene da Academia Itabaianense de Letras, entre outros.


Já falei algumas vezes que as Trilhas do Cipoal foram as veredas que me legaram muito longe, haja vista que cheguei à Esquina do Arco-íris, um lugar imaginário fantástico, seguindo um percurso não menos complicado do que aquelas. No entanto, existe um diferencial: o tempo do trajeto durou apenas um ano. Vinte anos a menos na caminhada. Isso me faz meditar na veracidade da frase que minha avó paterna falava com frequência: “O difícil em qualquer caminhada é dar o primeiro passo; feito isto, vai-se até ao fim do mundo” ou até a Esquina do Arco-íris. Sim, na última quarta-feira (6), recebi a notícia, por intermédio de Joselito Miranda, meu editor, que Esquina do Arco-íris fora escolhido para fazer parte do acervo da Library of Congress – a Biblioteca do Congresso Norte-Americano. Que honra, não é verdade! Honra que não é só minha, mas que divido com os malhadorenses, com o estado de Sergipe e com o Brasil. Como disse Doutor Éverton Santos no prefácio do Esquina, “a Literatura pode muito, talvez possa tudo”.


Seguindo por essas trilhas e veredas literárias, com destino àquele arco-íris que cada um de nós visualizamos, é normal que as dificuldades surjam, no entanto, sempre aparece alguém que está disposto a nos ajudar e estende a mão; noutras ocasiões, somos aplaudidos a cada passo que avançamos rumo ao nosso ponto de chegada enquanto olhos de medusa nos vigiam ao longe, à semelhança dos cereus que do alto de seus espinhos contemplam a vítima que jaz agonizante. Isso faz parte do trajeto, pois quem se aventura por esses caminhos deve estar disposto a pisar sobre seixos, solo movediço ou nas brasas camufladas pelas cinzas.


Mas, nem só de obstáculos vive o literato. O reconhecimento tarda, mas não falha e quando vem, vem em dose dupla como o que ocorreu na última terça-feira (12), dia em que fui contemplado com o Prêmio Profissionais Sergipe, edição 2022, dedicado aos diversos segmentos das profissões, no meu caso, como escritor. Em seguida, nesse sábado (16), foi a vez de receber o Prêmio Oxente em reconhecimento às minhas obras literárias publicadas.


“Há tempo para tudo debaixo do céu.” Receber duas premiações em apenas uma semana, depois de ter estreado no meio literário há um ano, é muito honroso e bastante gratificante para mim. Por isso só tenho que agradecer a Deus e a todos aqueles que seguem comigo nessa jornada. Alguns foram chamados para peregrinar também, mas recusaram o convite, para esses, só tenho uma advertência: A VIDA É UMA TRAVESSIA QUE NÃO SE FAZ SÓ. No entanto, o convite está aberto, quem quiser me acompanhar, ainda há tempo e será bem-vindo, se não aceitar, respeito a decisão, mas lamento.





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