Jilberto Oliveira - Acorda, Vem Ver! Das origens ao presente

Atualizado: 3 de jun.


A tradição é antiga. Todos os anos, na virada do último dia de maio para o primeiro de junho, a população de Malhador acorda aos sons típicos da época junina, executados por três instrumentos básicos do forró pé de serra que é a sanfona, o bumbo e o triângulo. Juntando-se esses três instrumentos à animação de um grupo folclórico, temos como resultado uma das manifestações culturais mais autênticas de nosso município: o Acorda Vem Ver.


Ao contrário do que se pensa, essa manifestação cultural não surgiu no centro da nossa cidade, mas sim, na zona periférica, em um logradouro cujo nome é Saco do Fundo, numa data indefinido, situada entre os fins dos anos 50 ao início da década de 1960. O surgimento dessa demonstração folclórica malhadorense teve como criador principal o saudoso João Piloto o qual, juntamente com um grupo de amigos, resolveu celebrar a chegada do mês junino, percorrendo as residências da vizinhança, embalados pelos sons daqueles instrumentos básicos que animam um forró pé de serra ou o famoso “rela bucho”.


Segundo o relato de Maciel Soares, neto de João Piloto, à medida que o cortejo visitava outras residências, fazia parada em frente a elas, os membros saudavam o dono da casa e solicitavam que abrisse a porta para que as boas energias da animação penetrassem no lar. Realizado esse rito, pediam aguardente, gêneros alimentícios ou dinheiro, cujo objetivo era servir uma refeição reforçada aos participantes logo que o dia amanhecesse, já que eles passavam toda a madrugada andando, dançando e cantando pelas ruas.


No entanto, o Saco do Fundo era um sítio pequeno para conter tanta alegria. Seria preciso difundi-la por outros arrabaldes. Sendo assim, aquele grupo folclórico foi além dos seus limites, descendo e subindo ruas, batendo de porta em porta, espalhando música enquanto a madrugada avançava rumo ao romper da aurora. Naquela peregrinação, chegou ao centro de Malhador onde a população era bem superior a do Saco do Fundo. O povo da cidade acordou com uma serenata diferente cujo refrão dizia: Acorda, vem ver! Vem ver acordação! Acorda todo mundo que é primeiro de São João. (Alguém do grupo puxava esse refrão único e os demais respondiam em coro).


Com o passar dos anos, João Piloto manteve a tradição e sua casa serviu como o ponto de partida desse evento junino até mesmo após a morte a qual ocorreu em 1998, tendo em vista que Paulinho, o filho dele, assumiu o lugar, objetivando manter essa manifestação folclórica viva, seguindo o mesmo formato que o pai criara.


Infelizmente, Paulinho não viveu por muito tempo, vindo a óbito de forma inesperada em 2014. Com a morte dele, o Acorda Vem Ver ficou ameaçado de extinção, devido às incertezas de quem assumisse a responsabilidade para realizá-lo aos modos originais e ficou por conta de alguns grupos independentes.


Em 2020, a pandemia de Covid 19 impediu que a nossa manifestação folclórica mais original fosse realizada. Todos os habitantes da cidade sentiram um vazio imenso na virada de maio para junho. Foi uma madrugada triste. Não se ouviu o som da sanfona, ao longe, nem o batuque do bumbo, acompanhado do triângulo com vozes masculinas ao fundo, saudando o glorioso São João.


Ano passado, a tradição foi mantida, porém, em outro formato por causa do momento epidêmico em que vivíamos. Os realizadores desfilaram pelas ruas na carroceria de um carro, acompanhados por um trio pé de serra em que havia uma pessoa tirando alguns versos, mas não seguiu a prática de bater de porta em porta. A presença de carros no evento, deu uma aparência de carreata.


A edição do Acorda Vem Ver deste ano (2022), promovida pela administração pública municipal, trouxe uma versão diferente do tradicional e foi antecedida por novas atrações acrescentadas ao evento, denominadas de “esquenta”, a exemplos de apresentação de quadrilhas juninas, bandas de forró e brincadeiras da época.


Não resta dúvida de que foi uma grande festa popular que envolveu toda a comunidade. Caso o antigo espaço do Saco do Fundo ainda existisse, não comportaria tanta gente. Gente que foi atraída pela divulgação, pelo lindo cenário, pelas atrações e, principalmente, pelo profissionalismo empregado na organização do evento. Diante do sucesso apresentado, será um enorme desafio para as futuras realizações do Acorda Vem Ver que, de modo algum, poderá ser inferior ao espetáculo o qual foi apresentado hoje.


Pelo visto, os esforços de João Piloto não foram em vão. Estivesse entre nós, estaria sorrindo de tanta felicidade ao constatar que aquele projeto cultural, idealizado por ele e um grupo de vizinhos, o qual batizaram de Acorda Vem Ver, não morreu, pelo contrário, está bem vivo e, pelo que tudo indica, ainda viverá por tempo indeterminado.



* Este texto poderá ser utilizado como fonte de pesquisa desde que o nome do autor seja citado no trabalho.



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